Para ser grande, sê inteiro: nada
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
Fernando Pessoa (1888-1935) - Para ser grande, sê inteiro (Ricardo Reis)
Lord Byron (1788-1824)
A beleza a acompanha
terça-feira, 27 de dezembro de 2022
O Espectro da Rosa (poema de T. Gautier e balé de Nijinsky)
LE SPECTRE DE LA ROSE
O TRAJE DE NIJINSKY O traje de malha de seda de Nijinsky foi desenhado por Léon Bakst. O traje era coberto de pétalas de rosa de seda que eram costuradas no traje de Nijinsky a cada espetáculo. Depois da apresentação, a camareira retocava as pétalas com seu modelador de cabelo. A maquiagem de Nijinsky era uma parte importante do figurino. Romula de Pulszky, que mais tarde tornou-se sua esposa, escreveu que ele parecia “um inseto celestial, com sobrancelhas que sugeriam um lindo besouro”. O traje de Nijinsky equivalia ao de uma bailarina. Às vezes, as pétalas se soltavam e caíam no palco. Vasili, o assistente de Nijinsky, recolhia as pétalas e vendia-as como souvenirs. Diz-se que construiu uma grande casa chamada “Le Château du Spectre de la Rose” com o que auferiu com a venda das pétalas.
O SALTO DE NIJINSKY O balé tornou-se famoso pelo salto de Nijinsky por uma das grandes janelas ao fundo do palco. A altura do salto, no entanto, era uma ilusão. Nijinsky dava uma corrida de cinco passos do meio do palco e saltava pela janela no sexto passo. A base da janela era muito baixa, dando a impressão de que o salto fosse mais alto do que era. Nos bastidores, quatro homens seguravam Nijinsky ainda no ar, pondo toalhas quentes sobre ele. Ninguém na plateia via Nijinsky tocar o chão, dando a impressão de continuar voando. Essa ilusão era enfatizada pelo maestro que sustentava o penúltimo acorde da orquestra. Ao fazer isso, o salto dava a impressão de ter maior comprimento e altura.
A COREOGRAFIA DE FOKINE Michel Fokine completou a coreografia do balé em três ou quatro ensaios. Mais tarde, escreveu que o balé foi quase um improviso. “O Espectro” é um pas de deux sem a complexa técnica e virtuosismo do século 19, como uma dança moderna, com movimentos e expressividade contínuos. Fokine abandonou o port de bras do balé clássico ao criar essa coreografia para Nijinsky. Em vez disso, usou movimentos curvos dos braços e das mãos, semelhantes às hastes das roseiras. Nijinsky, neste balé, tornou-se um personagem andrógino, mostrando força masculina nas pernas e delicadeza feminina nos braços, o que, segundo Ostwalt, em “Nijinsky: Um salto para a loucura” , “emprestava uma aura feminina ao personagem”.
A SINOPSE A cortina se abre no quarto de uma jovem. Ela entra, usando um chapéu branco e um vestido de baile. Ela está voltando para casa após seu primeiro baile, segurando uma rosa como lembrança daquela noite. Deixa-se cair numa cadeira e adormece. A rosa tomba de seus dedos no chão. O Espírito da Rosa salta pela janela. Ele pousa e aproxima-se da Jovem. Dormindo, ela se levanta e dança com ele. Ele a devolve à cadeira, beija-a, salta pela janela e some na noite. A Jovem desperta e se levanta. Pega a rosa do chão e a beija. A cortina se fecha.
Fazendo pesquisa sobre a origem de todos os balés clássicos desde 1789 (La fille mal gardée), até Spartacus, de 1956, quero saber onde foram buscar as inspirações... Juntei 32 balés até agora. Na verdade, fui até Onegin, de John Cranko, de 1965, com música de Tchaikovsky, inspirado no romance em versos de Puchkin, "Eugene Onegin", para o qual o compositor russo fez uma ópera. Muitas vezes nos surpreendemos com o que encontramos. O balé "O Corsário", de 1856, por exemplo, foi inspirado num poema homônimo, de Lorde Byron, de 1814. A novela "Carmen" de Prosper Mérimée, de 1845, inspirou Bizet a escrever uma ópera, em 1875. O balé só foi criado para a mesma música em 1949, mais de 100 anos depois da publicação do livro. Uma das histórias de que mais gosto é a do poema de Mallarmé, que 18 anos depois, se tornou o "Prelúdio para a Tarde de um Fauno", de Debussy, que 18 anos mais tarde, foi coreografado e dançado por Nijinsky, em 1912, em Paris. Um poema que virou música e depois virou balé. O primeiro poema pré-moderno, que se tornou a primeira música impressionista, que gerou o primeiro balé moderno, com um intervalo de 18 anos entre cada um deles. Mallarmé pediu a Debussy que compusesse uma suíte para “A tarde de um fauno”, para ser lido junto com seu poema, porém desistiu do pedido, quando Debussy já criara o Prelúdio, executando-o 18 anos após a publicação do poema. Em 1912, Nijinsky estreou a primeira coreografia moderna para a primeira música clássica impressionista, inspirada num poema pré-moderno, 18 anos depois da 1ª execução da música, assistida por Mallarmé, que, no entanto, não chegou a assistir ao balé. Debussy, porém, estava na plateia do Théatre du Châtelet, onde a coreografia de dez minutos foi ao mesmo tempo aplaudida, vaiada e ovacionada pelo público, que reunia toda a Paris. Entre eles, estava Rodin, que se inspirou para fazer uma estatueta de Nijinsky dançando o Fauno. Essa história eu publiquei em livro, com a edição bilíngue do poema de Mallarmé, "A tarde de um fauno".
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
SONETO 81
Luís Vaz de Camões
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
SONNET 81
Luís Vaz de Camões
L’amour est un feu qui brûle sans être vu;
C’est une blessure qui fait mal sans sentir;
C’est un contentement mécontent;
C’est une douleur qui se déroule sans blessure;
C’est ne pas vouloir plus que vouloir bien;
C’est solitaire de marcher parmi les gens;
C’est jamais être content d’être content;
C’est gardez qu’on gagne en tout perdant;
C’est être pris par sa volonté;
C’est servir ce qui gagne, le vainqueur;
C’est avoir pour qui nous tue, loyauté.
Mais comment peut sa faveur causer
L’amitié dans les cœurs humains,
Si tellement contraire est le même amour?
Traduction: Thereza Christina Rocque da Motta
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Amanda Gorman, National Youth Poet Laureate (1998-)
A COLINA QUE SUBIMOS
Quando chega o dia, nos perguntamos, onde haverá luz nesta
sombra sem fim?
Tão grande a perda que carregamos.
Tão largo o mar que devemos cruzar.
Enfrentamos a força do monstro.
Aprendemos que o silêncio nem sempre significa paz e as
regras e as noções do que é "justo" nem sempre significam justiça.
E, ainda assim, o dia amanhece antes que possamos perceber.
De alguma forma, nós fazemos isso.
De alguma forma, resistimos e testemunhamos uma nação que
não está partida, mas apenas incompleta.
Nós, os herdeiros de um país e de uma época em que uma
mulher negra e magricela, descendente de escravos e criada por uma mãe
solteira, pode sonhar em se tornar presidente, e se descobre recitando para
ele.
E, sim, estamos longe de sermos polidos, longe de sermos
originais, mas isso não quer dizer que não estejamos nos esforçando para criar
uma união perfeita.
Estamos nos esforçando para forjar nossa união com uma
finalidade.
Para formar um país comprometido com todas as culturas,
cores, personagens e condições do homem.
E, então, erguemos o olhar, não para aquilo que se interpõe
entre nós, mas para o que está à nossa frente.
Diminuímos a separação por sabermos colocar o futuro em
primeiro lugar, e para isso, devemos, antes de tudo, colocar nossas diferenças
de lado.
Baixamos nossos braços para podermos estendê-los aos outros.
Não queremos mal a ninguém, mas, sim, a harmonia entre
todos.
Deixem o mundo, senão, quem mais, dizer que isto é verdade.
Que enquanto sofríamos, nós crescíamos.
Que enquanto nos magoavam, sentíamos esperança.
Que mesmo cansados, nós tentávamos.
Estaremos sempre juntos e vitoriosos.
Não porque nunca mais teremos que enfrentar a derrota, mas
porque nunca mais semearemos a discórdia.
A Bíblia nos diz que todos se sentarão sob sua própria
videira e figueira, e ninguém os afligirá.
Se estamos aqui para aquilo que nos cabe viver, então a
vitória não está na espada, mas em todas as pontes que construirmos.
Esta é a promessa da clareira, para subirmos a colina, se
tivermos coragem.
Porque ser Americano é mais do que um orgulho que herdamos.
É o passado que carregamos conosco e o transformamos.
Vimos uma força que destruiria nossa nação, em vez de
compartilhá-la.
Teria destruído nosso país, se tivessem subjugado a
democracia.
E esse desastre quase aconteceu.
Mas, embora possam, por vezes, subjugar a democracia, ela
nunca será permanentemente derrotada.
Nesta verdade, nesta fé, nós confiamos, pois enquanto
mantivermos os olhos no futuro, a História continuará a nos seguir com o seu
olhar.
Esta é a era da justa redenção.
Nós tememos no início.
Não nos sentíamos preparados para herdar um momento tão
terrível.
Mas, dentro dele, encontramos a força para escrever um novo
capítulo, que nos trouxesse esperança e risos.
Então, enquanto nos perguntávamos como iríamos vencer a
catástrofe, agora dizemos, como a catástrofe haveria de nos vencer?
Não marcharemos de volta ao passado, mas para aquilo que
virá:
Um país que está ferido, porém inteiro, que é benevolente,
mas ousado, feroz e livre.
Não seremos desviados ou interrompidos pela intimidação,
pois sabemos que, se a próxima geração herdar nossa inércia e omissão, isso
será seu futuro.
Nossos erros se tornarão seus fardos.
Mas uma coisa é certa.
Se unirmos misericórdia e força, e força e direito, então,
legaremos o amor como herança e isso mudará o direito de nascimento dos nossos
filhos.
Assim, deixemos um país melhor do que aquele que herdamos.
A cada alento que ressoa em meu peito, tornaremos este mundo
ferido em um mundo maravilhoso.
Nós nos levantaremos das colinas douradas do Oeste.
Nós nos levantaremos do Nordeste batido pelos ventos, onde
nossos antepassados lutaram sua primeira revolução.
Nós nos levantaremos das cidades à margem dos lagos nos estados
do Meio Oeste.
Nós nos levantaremos do Sul escaldado pelo sol.
Nós iremos reconstruir, nos reconciliar e nos recuperar.
E em cada canto conhecido de nossa nação e em cada canto que
chamamos de país, nosso povo diverso e belo, emergirá maltratado e esplêndido.
Quando chega o dia, saímos da sombra das chamas, sem medo.
O novo amanhecer se eleva no momento em que o libertamos.
Pois sempre haverá luz,
Se tivermos coragem para vê-la.
Se tivermos coragem para sermos essa luz.
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, no dia da
posse de Joe Biden e Kamala Harris, em Washington, D.C., em 20 de janeiro de
2021.
THE HILL WE CLIMB
Amanda Gorman
When day comes, we ask ourselves, where can we find light in this never-ending shade?
The loss we carry.
A sea we must wade.
We braved the belly of the beast.
We’ve learned that quiet isn’t always peace, and the norms and notions of what “just” is isn’t always justice.
And yet the dawn is ours before we knew it.
Somehow we do it.
Somehow we weathered and witnessed a nation that isn’t broken, but simply unfinished.
We, the successors of a country and a time where a skinny black girl descended from slaves and raised by a single mother can dream of becoming president, only to find herself reciting for one.
And, yes, we are far from polished, far from pristine, but that doesn’t mean we are striving to form a union that is perfect.
We are striving to forge our union with purpose.
To compose a country committed to all cultures, colors, characters, and conditions of man.
And so we lift our gaze, not to what stands between us, but what stands before us.
We close the divide because we know to put our future first, we must first put our differences aside.
We lay down our arms so we can reach out our arms to one another.
We seek harm to none and harmony for all.
Let the globe, if nothing else, say this is true.
That even as we grieved, we grew.
That even as we hurt, we hoped.
That even as we tired, we tried.
That we’ll forever be tied together, victorious.
Not because we will never again know defeat, but because we will never again sow division.
Scripture tells us to envision that everyone shall sit under their own vine and fig tree, and no one shall make them afraid.
If we’re to live up to our own time, then victory won’t lie in the blade, but in all the bridges we’ve made.
That is the promise to glade, the hill we climb, if only we dare.
It’s because being American is more than a pride we inherit.
It’s the past we step into and how we repair it.
We’ve seen a force that would shatter our nation, rather than share it.
Would destroy our country if it meant delaying democracy.
And this effort very nearly succeeded.
But while democracy can be periodically delayed, it can never be permanently defeated.
In this truth, in this faith we trust, for while we have our eyes on the future, history has its eyes on us.
This is the era of just redemption.
We feared at its inception.
We did not feel prepared to be the heirs of such a terrifying hour.
But within it we found the power to author a new chapter, to offer hope and laughter to ourselves.
So, while once we asked, how could we possibly prevail over catastrophe, now we assert, how could catastrophe possibly prevail over us?
We will not march back to what was, but move to what shall be:
A country that is bruised but whole, benevolent but bold, fierce and free.
We will not be turned around or interrupted by intimidation because we know our inaction and inertia will be the inheritance of the next generation, become the future.
Our blunders become their burdens.
But one thing is certain.
If we merge mercy with might, and might with right, then love becomes our legacy and change our children’s birthright.
So let us leave behind a country better than the one we were left.
Every breath from my bronze-pounded chest, we will raise this wounded world into a wondrous one.
We will rise from the golden hills of the West.
We will rise from the windswept Northeast where our forefathers first realized revolution.
We will rise from the lake-rimmed cities of the Midwestern states.
We will rise from the sun-baked South.
We will rebuild, reconcile, and recover.
And every known nook of our nation and every corner called our country, our people diverse and beautiful, will emerge battered and beautiful.
When day comes, we step out of the shade of flame and unafraid.
The new dawn balloons as we free it.
For there is always light,
if only we’re brave enough to see it.
If only we’re brave enough to be it.
Amanda Gorman, 22, read her poem on Joe Biden and Kamala Harris' Inauguration Day, on January 20, 2021, at Capitol Hill, in Washington, D.C., USA
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Alberto Pucheu (1966- )
EVERYTHING I BRING TODAY
Alberto Pucheu
Bring me turmeric, rosemary, and a book of poems
from those so far from me. Bring me the photos
that I did not take at Tuol Sleng, in Phnom Penh, Cambodia.
Bring me news of those who live in Paro Taktsang,
in Bhutan. Are there many tigers growing in that cave?
How are they? Bring me the singing poets
from the Amazon to wake me up
and cherish my sleep every night
with everything they can tell us. Bring me the calm
to climb Mount Fuji like that snail
from Basho and to visit the wooden temples, their bells, and stone gardens.
Bring me the Kilimanjaro, the Himalayas, some village
in Tibet, where I can hear stories of lives
unimaginable in a language that I cannot understand at all.
Bring me the Xingu, the indigenous people, their ways of life, the forest,
rituals. Bring me the Xisto Villages in Portugal, their valleys,
and many rivers from all over the world, so I can bathe
in them, bring me an Alaskan landscape, or even
from Siberia, bring me the Atacama sky, at least
a piece of the Andes, bring me a dirt road at the foot
of the Everest, the peak of the Everest, and the vastness
from the peak of the Everest. Bring me the Greece I haven’t seen,
but in the poems that I have slowly read,
and about which I have written so much. In everything you bring me,
bring me my love, because without it nothing will do.
Bring me – be sure to bring it in your pocket – a rhino
from Africa as a present, by the way, bring me right away an entire herd
of rhinos, bring me hippos and the Thai elephants
that sensed the tsunamis, saving some lives.
Bring me, please, if you can – we are in a haste –, many
elephants from Thailand: most of us have not foreseen
the announced horror that would come for us, nor even is responsible
now for the horror we live in. Bring me, please,
if they are not going to be missed in this time over there, at least,
an elephant from Thailand for every person here, to live
as quickly as possible among us, sensing the dangers
imposed on this country, and taking its inhabitants
to higher peaks.
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
TUDO QUE TRAGO PARA HOJE
Alberto Pucheu
Tragam-me a cúrcuma, o alecrim e um livro de poemas
daqueles mais distantes de mim. Tragam-me as fotografias
que não tirei na Tuol Sleng, em Phnom Penh, no Camboja.
Tragam-me notícias dos que moram em Paro Taktsang,
no Butão. Há muitos tigres crescendo naquela caverna?
Como eles estão? Tragam-me os poetas cantadores
da Amazônia para me despertarem
e acalentarem a cada noite o meu sono
com tudo o que eles têm para nos contar. Tragam-me a calma
para subir o Monte Fuji como aquele caramujo
de Bashô e para visitar os templos de madeira, seus sinos e jardins de pedra.
Tragam-me o Kilimanjaro, o Himalaia, uma aldeia qualquer
no Tibete, em que eu consiga escutar histórias de vidas
inimagináveis em uma língua da qual eu não entenda nada.
Tragam-me o Xingu, os indígenas, seus modos de vida, a floresta,
rituais. Tragam-me as Aldeias de Xisto de Portugal, seus vales
e muitos rios do mundo inteiro para que eu possa tomar banho
neles, tragam-me uma paisagem do Alasca, ou mesmo
da Sibéria, tragam-me o céu do Atacama, um pedaço, ao menos,
da Cordilheira dos Andes, tragam-me uma estrada de terra ao pé
do Everest, o pico do Everest e a vastidão que se tem
do pico do Everest. Tragam-me a Grécia que não vi
senão nos poemas que vagarosamente li
e sobre os quais tanto escrevi. Em tudo que me trouxerem,
tragam-me o meu amor, porque sem ele nada adiantará.
Tragam-me – não deixem de trazer no bolso – um rinoceronte
da África de presente, aliás, tragam-me logo uma manada inteira
de rinocerontes, tragam-me hipopótamos e os elefantes
tailandeses que pressentiram os tsunamis, salvando algumas vidas.
Tragam-me, por favor, se puderem, – temos pressa –, muitos
elefantes da Tailândia para cá: a maioria de nós não anteviu
o horror anunciado que para nós viria nem se responsabiliza
agora pelo horror que vivemos. Tragam-me, por favor,
se não forem fazer falta nesses tempos por lá, ao menos,
um elefante da Tailândia para cada pessoa daqui, para viverem
o mais rápido possível entre nós, pressentindo os perigos
impostos a este país e levando seus habitantes
a cumes mais altos.
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
T. S. Eliot (1888-1965)
DEATH BY WATER
T. S. Eliot
Phlebas, the Phoenician, a fortnight dead,
Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell
And the profit and loss.
A current under sea
Picked his bones in whispers. As he rose and fell
He passed the stages of his age and youth
Entering the whirlpool.
Gentile or Jew
O you who turn the wheel and look to windward,
Consider Phlebas, who as once handsome and tall as you.
in The Waste Land, IV
MORTE NA ÁGUA
T. S. Eliot
Flebas, o fenício, há quinze dias morto,
Esqueceu o grito das gaivotas, a ressaca
E tudo o que havia ganhado e perdido.
Uma corrente marinha
Dissolveu seus ossos num murmúrio. Enquanto subia e descia,
Lembrou-se de sua velhice e juventude
Ao entrar no redemoinho.
Gentio ou judeu,
Ó tu que giras o leme e olhas na direção do vento,
Lembra-te de Flebas, que um dia foi alto e belo como tu.
in A Terra Devastada, IV
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
ODE TO THE WEST WIND
Percy Bysshe Shelley
V
Make me thy lyre, even as the forest is:
What if my leaves are falling like its own!
The tumult of thy mighty harmonies
Will take from both a deep, autumnal tone,
Sweet though in sadness. Be thou, Spirit fierce,
My spirit! Be thou me, impetuous one!
Drive my dead thoughts over the universe
Like withered leaves to quicken a new birth!
And, by the incantation of this verse,
Scatter, as from an unextinguished hearth
Ashes and sparks, my words among mankind!
Be through my lips to unawakened earth
The trumpet of a prophecy! O, Wind,
If Winter comes, can Spring be far behind?
ODE AO VENTO
OESTE
Percy Bysshe
Shelley
V
Faze de mim tua
lira, assim como a floresta:
Como se minhas
folhas caíssem das árvores!
O tumulto de tuas
fortes harmonias
Tomará de ambos
um profundo tom outonal,
Doce, porém,
triste. Sê tu, Espírito feroz,
Meu espírito!
Seja eu quem és, ó impetuoso!
Leva pelo
universo meus mortos pensamentos,
Folhas secas para
acelerar um novo nascimento!
E, pelo
encantamento deste poema,
Espalha, como de
um fogo eterno,
Cinzas e
fagulhas, minhas palavras pela humanidade!
Que meus lábios
soprem, à terra adormecida,
A trombeta de uma
profecia! Ó, Vento,
Se chega o
Inverno, tardará a Primavera?
Tradução: Thereza
Christina Rocque da Motta
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Charles Baudelaire (1821-1867)
Charles Baudelaire
Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment égalemanet, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont firleux et comme eux sédentaires.
Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Érèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.
Ils prennet en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans um rêve sans fin;
Leurs reins féconds sont pleins d'etincelles magiques
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Étoilent vaguement leurs prunelles mystiques.
(Spleen et idéal. LXVI. "Les Chats", Les fleurs du mal, 1861)
OS GATOS
Charles Baudelaire
Amantes fervorosos e sábios austeros
Amam igualmente, em sua idade madura,
Os gatos fortes e gentis, o orgulho da casa,
Que, como eles, são loucos e sedentários.
Amigos da ciência e do prazer,
Procuram o silêncio e o horror das trevas;
Érebo aprisionou-os como mensageiros funéreos,
Pudessem, em cativeiro, dobrar seu orgulho.
Sonham e imaginam os nobres gestos
Das grandes esfinges no fundo de sua solidão,
Como se dormissem um sonho sem fim;
Seus rins fecundos estão cheios de mágicas faíscas
E pepitas de ouro, além do pó da areia fina,
Que cintilam em seus olhos místicos.
(Spleen e ideal. LXVI. “Os gatos”, As flores do mal, 1861)
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
terça-feira, 2 de junho de 2020
W. H. Auden (1907-1973)
W. H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
CANTO FÚNEBRE
W. H. Auden
Parem os relógios, cortem o telefone,
impeçam o cão de latir com um osso suculento,
silenciem os pianos e, ao som de um tambor surdo,
tragam o caixão; deixem entrar carpideiras.
Deixem os aviões circular em pranto
escrevendo no céu a mensagem Ele morreu,
ponham gravatas de crepe nos pescoços brancos dos pombos,
deixem os guardas de trânsito usar luvas pretas de algodão.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
minha semana de trabalho e meu descanso de domingo,
meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, minha canção;
acreditei que o amor durasse para sempre: eu estava errado.
Não quero ver as estrelas agora: apaguem todas;
embrulhem a lua e desmontem o sol;
despejem o mar e varram as florestas,
porque tudo de repente perdeu todo o sentido.
Tradução Thereza Christina Rocque da Motta
Alfred, Lord Tennyson (1809-1892)
Alfred, Lord Tennyson
1
The plain was grassy, wild and bare,
Wide, wild, and open to the air,
Which had built up everywhere
An under-roof of doleful gray.
With an inner voice the river ran,
Adown it floated a dying swan,
And loudly did lament.
It was the middle of the day.
Ever the weary wind went on,
And took the reed-tops as it went.
2
Some blue peaks in the distance rose,
And white against the cold-white sky,
Shone out their crowning snows.
One willow over the water wept,
And shook the wave as the wind did sigh;
Above in the wind was the swallow,
Chasing itself at its own wild will,
And far thro' the marish green and still
The tangled water-courses slept,
Shot over with purple, and green, and yellow.
3
The wild swan's death-hymn took the soul
Of that waste place with joy
Hidden in sorrow: at first to the ear
The warble was low, and full and clear;
And floating about the under-sky,
Prevailing in weakness, the coronach stole
Sometimes afar, and sometimes anear;
But anon her awful jubilant voice,
With a music strange and manifold,
Flow'd forth on a carol free and bold;
As when a mighty people rejoice
With shawms, and with cymbals, and harps of gold,
And the tumult of their acclaim is roll'd
Thro' the open gates of the city afar,
To the shepherd who watcheth the evening star.
And the creeping mosses and clambering weeds,
And the willow-branches hoar and dank,
And the wavy swell of the soughing reeds,
And the wave-worn horns of the echoing bank,
And the silvery marish-flowers that throng
The desolate creeks and pools among,
Were flooded over with eddying song.
A MORTE DO CISNE (1830)
Alfred, Lord Tennyson
1
A planície estava vazia, relvosa e selvagem,
Ampla, virgem, e aberta ao céu,
Espalhando por toda parte
Um gramado cinza escuro.
O rio corria com sua voz soturna,
Por ele, flutuava um cisne moribundo,
E ele bradava seu lamento.
O dia já ia pelo meio.
O vento triste continuava soprando,
E sacudia o alto das árvores ao passar.
2
Os cumes azuis elevavam-se à distância,
E brancos contra o céu pálido e frio
Brilhavam seus topos coroados de neve.
O salgueiro chorava à beira d’água,
E agitava as ondas enquanto o vento suspirava;
Acima do vento estava a andorinha,
Arremetendo contra o vento,
E longe através do pântano verde e imóvel
Dormiam os riachos emaranhados,
Cobertos de tufos lilases, verdes e amarelos.
3
O canto de morte do cisne selvagem tomou a alma
Daquele lugar deserto com uma alegria
Escondida na tristeza: a princípio para o ouvido
O trinado soava baixo, cheio e claro;
E flutuando sob o céu,
Cedendo à fraqueza, o canto fúnebre seguia,
Por vezes, longe, por vezes, perto;
Mas logo sua terrível voz, cheia de júbilo,
Com uma música múltipla e estranha,
Fluía sua canção livre e intrépida;
Assim como um povo forte se rejubila
Com charamelas, címbalos e harpas de ouro,
E o tumulto de seu clamor se desenrola
Pelos portões abertos da cidade distante,
Para o pastor que vê a estrela vespertina.
E os musgos rasteiros e as ervas trepadeiras,
E os galhos dos chorões brancos e úmidos,
E o movimento ondulante dos juncos murmurantes,
E os chifres gastos nas ondas às margens ressonantes,
E as flores prateadas dos pântanos que se espalham
Nos riachos e lagos desolados,
Foram inundados com esse canto em torvelinho.
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
quarta-feira, 20 de maio de 2020
William Shakespeare (1564-1616) Ricardo III
ATO PRIMEIRO
CENA PRIMEIRA: Uma rua de Londres
Entra Ricardo, Duque de Gloucester, sozinho
GLOUCESTER:
Eis o inverno do nosso descontentamento
Que ressurge como um verão glorioso sob este sol de York;
E todas as nuvens que pesavam sobre nossa casa
Jazem sepultas nas profundezas do oceano.
Eis que nossas frontes estão cingidas pelos louros da vitória;
Nossos braços feridos pendurados para os monumentos;
Nossos aturdidos alarmes hoje são festivas reuniões,
Nossas terríveis marchas são deliciosas danças.
A guerra sombria suavizou sua fronte enrugada;
E, agora, em vez de montar corcéis armados
Para aterrorizar as almas de temíveis adversários,
Escala agilmente até o quarto de uma dama
Para o prazer lascivo ao som de um alaúde.
Mas, eu, que não sou afeito a truques esportivos,
Nem para cortejar uma parceira amorosa;
Eu, que sou grosseiro, e sem a majestade do amor
Para pavonear-me diante de uma idílica ninfa;
Eu, privado de belas proporções,
Desprovido de qualquer encanto pela pérfida natureza,
Deformado, inacabado, nascido prematuro
Neste mundo dos vivos, malfeito e incompleto,
E tão claudicante e sem jeito,
Que os cães ladram quando me aproximo;
Pois, eu, nesse fraco interregno de paz,
Não tenho prazer em meus passatempos,
A não ser ver minha sombra ao sol
E descrever minha própria deformidade:
E, portanto, como não posso me provar amoroso,
Para entreter estes belos e famosos dias,
Determinei-me que serei um vilão
E odiar os prazeres ociosos desses tempos.
Conspirei, fiz induções perigosas,
Absurdas profecias, difamações e sonhos,
Para lançar meu irmão Clarence e o rei
Um contra o outro, em ódio mortal:
E se o rei Edward for tão verdadeiro e justo
Quanto sou sutil, falso e traiçoeiro,
Hoje Clarence deverá ser feito prisioneiro,
Graças a uma profecia, que diz que ‘G’
Será o assassino dos herdeiros de Edward.
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta
quinta-feira, 23 de abril de 2020
William Shakespeare (1564-1616) Puck
Se, nós, sombras, vos ofendemos,
Considerai este fato, e tudo se explicará,
Que vós apenas adormecestes,
Enquanto estas visões se sucederam.
E este fraco e inútil tema,
Que não passou senão de um sonho,
Gentis espectadores, não nos censureis.
Se nos perdoais, nos corrigiremos.
E, por ser Puck honesto,
Se merecermos a sorte
De escapar da língua viperina,
Faremos o melhor que pudermos,
Senão Puck terá mentido.
Então, boa noite a todos,
Dai-me vossas mãos, se fordes amigos,
E o pintarroxo o fará por nós.
(Sai.)
William Shakespeare, "Sonho de uma noite de verão", Ato V, Cena 1 (final). Tradução de Thereza Rocque da Motta
sábado, 14 de março de 2020
Celso de Alencar (1949- )
Celso de Alencar
I beg You, Lord,
Before expelling from your land
Those who look for shelter where
The deer still runs through the forest,
You, whose ancestors
Came from far away places;
I beg You, ask the children
Of the United States of America.
Ask the Apaches, the Creeks, the Navajos,
The Cherokees, the Sioux, the Comanches.
Ask the children
Of the African slaves,
And also, Lord, the children of the immigrants,
Those, who, like You, have built the Peach Land.
Allow all to reach the Mississippi,
All to bathe in the waters
Of the Altamaha or the Chattahoochee and more:
That all be tall as the pine trees.
Life is a fragile bird
And sometimes it is as old as a beaver.
My back is bare
As well as my soul.
To the right, my eyes behold the Brassmount,
To the left, the tombs in the cemeteries.
I beg You, Lord, don’t wipe off
The dreams of those who yearn for freedom.
in "Perverse Poems"
Translation: Thereza Christina Rocque da Motta
POEMA PARA SONNY PERDUE
Celso de Alencar
Eu Vos peço, Senhor,
antes de excluir de Vossa terra
aqueles que buscam abrigo onde
os veados ainda correm na floresta,
Vós que tendes como ancestrais
povos vindos de lugares longínquos;
consultai, eu Vos peço, os filhos
dos Estados Unidos da América.
Consultai os Apaches, os Creek, os Navajos,
os Cherokees, os Sioux, os Comanches.
Consultai ainda os filhos
dos escravos africanos,
e também, Senhor, os filhos dos emigrantes,
aqueles que como Vós construíram a Terra do Pêssego.
Permiti que todos alcancem o Mississipi,
que todos adentrem as águas
do Altamaha ou as do Chattahoochee e mais:
que todos possam ser altos como os pinheiros.
A vida é um pássaro frágil
e às vezes tem a idade de um castor.
Meu dorso está nu
assim como a minha alma.
À direita meus olhos veem o Brassmount,
à esquerda, os cemitérios deitados no chão.
Eu Vos peço, não eliminai, Senhor,
o sonho daqueles que a liberdade buscam.
in "Poemas Perversos"
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)













