terça-feira, 1 de agosto de 2017

Fernando Pessoa (1888-1935)

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

To be great, be wholesome: never
Exaggerate or exclude.
Be whole in each thing. Put all you are
In the least you do.
So in each pond the whole moon
Shines, as it lives up high.

Ode de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta 


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Edgar Allan Poe (1809-1849)

ANNABEL LEE
Edgar Allan Poe

It was many and many a year ago, 
   In a kingdom by the sea, 
That a maiden there lived whom you may know 
   By the name of Annabel Lee; 
And this maiden she lived with no other thought 
   Than to love and be loved by me. 

I was a child and she was a child, 
   In this kingdom by the sea, 
But we loved with a love that was more than love— 
   I and my Annabel Lee— 
With a love that the wingèd seraphs of Heaven 
   Coveted her and me. 

And this was the reason that, long ago, 
   In this kingdom by the sea, 
A wind blew out of a cloud, chilling 
   My beautiful Annabel Lee; 
So that her highborn kinsmen came 
   And bore her away from me, 
To shut her up in a sepulchre 
   In this kingdom by the sea. 

The angels, not half so happy in Heaven, 
   Went envying her and me— 
Yes!—that was the reason (as all men know, 
   In this kingdom by the sea) 
That the wind came out of the cloud by night, 
   Chilling and killing my Annabel Lee. 

But our love it was stronger by far than the love 
   Of those who were older than we— 
   Of many far wiser than we— 
And neither the angels in Heaven above 
   Nor the demons down under the sea 
Can ever dissever my soul from the soul 
   Of the beautiful Annabel Lee; 

For the moon never beams, without bringing me dreams 
   Of the beautiful Annabel Lee; 
And the stars never rise, but I feel the bright eyes 
   Of the beautiful Annabel Lee; 
And so, all the night-tide, I lie down by the side 
   Of my darling—my darling—my life and my bride, 
   In her sepulchre there by the sea— 
   In her tomb by the sounding sea.

ANNABEL LEE
Edgar Allan Poe

Há muitos e muitos anos,
num reino junto ao mar,
havia uma moça
chamada Annabel Lee,
que só vivia com um pensamento,
de amar e ser amada por mim.

Eu era criança e ela era criança,
neste reino junto ao mar,
mas nosso amor era maior que o amor -
o meu e o de Annabel Lee,
um amor que os serafins do Céu
começaram a invejar.

E foi essa a razão por que, há muito,
neste reino junto ao mar,
surgiu um vento de uma nuvem, gelando
a minha bela Annabel Lee.
E seus nobres parentes vieram
e a levaram de mim,
para fechá-la numa tumba
neste reino junto ao mar.

Os anjos, não tão felizes no Céu,
continuaram a nos invejar,
Sim! Esta foi a razão (como todos sabem,
neste reino junto ao mar)
por que o vento surgiu da nuvem à noite
gelando e matando a minha Annabel Lee.

Mas nosso amor era mais forte que o amor
daqueles mais velhos que nós -
daqueles mais sábios que nós -
e nem os anjos do Céu acima,
nem os demônios no fundo do mar
jamais poderão separar minha alma da alma
da bela Annabel Lee.

Pois o luar sempre me traz sonhos
da bela Annabel Lee,
e as estrelas no céu me trazem o olhar
da bela Annabel Lee;
e, assim, por toda a noite, me deito ao lado
da minha amada, querida, minha noiva, minha vida,
em seu sepulcro junto ao mar -
em sua tumba junto ao murmúrio do mar.

Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta


terça-feira, 16 de agosto de 2016

William Shakespeare (1564-1616)

Act 3, Scene 1

Enter Hamlet

Hamlet
To be or not to be - that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And, by opposing, end them. To die, to sleep -
No more-and by a sleep to say we end
The heartache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to-'tis a consummation
Devoutly to be wished. To die, to sleep –
To sleep, perchance to dream. Aye, there's the rub,
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause. There's the respect
That makes calamity of so long life.
For who would bear the whips and scorns of time,
Th' oppressor's wrong, the proud man's contumely, [F: poor]
The pangs of despised love, the law’s delay, [F: disprized]
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? Who would fardels bear, [F: these Fardels]
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscovered country from whose bourn
No traveler returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pitch and moment, [F: pith]
With this regard their currents turn awry, [F: away]
And lose the name of action. – Soft you now,
The fair Ophelia. – Nymph, in thy orisons
Be all my sins remembered

Ato 3, Cena 1

Entra Hamlet

Hamlet
Ser ou não ser – eis a questão: 
ser mais nobre a mente sofrer 
as pedras e flechas da má sorte, 
ou debater-se em um oceano de problemas, 
e, ao se opor, dar a eles um fim. Morrer, dormir – 
não mais – e por dormir dizemos que findamos
a dor e os mil choques naturais 
que atacam o corpo – é uma consumação
que desejamos com todo o ardor. Morrer, dormir – 
dormir, talvez sonhar. Ah, esse é o obstáculo, 
porque nesse sono de morte que os sonhos trazem,
quando já deixamos esta ronda mortal, 
deve-nos dar uma trégua. Há o respeito
que torna uma vida uma calamidade tão longa. 
Quem iria suportar os relhos e os desdéns do tempo,
o erro do opressor, a contumácia do orgulhoso, 
as dores do amor rejeitado, o atraso da lei, 
a insolência do ofício, e o desprezo 
que se exige do mérito paciente dos desvalidos,
quando ele mesmo pode libertar-se da vida
com uma lâmina? Quem carregaria os fardos, 
para sofrer e suar em sua triste vida, 
mas pelo medo de alguma coisa após a morte, 
a terra ignota dos aventureiros que dela
nunca retornam, confunde a nossa vontade
e faz-nos preferir suportar os males que temos
do que ir ao encontro daqueles que desconhecemos?
Portanto a consciência faz de todos nós uns covardes, 
e assim a própria cor da decisão
é podada pelo mero pensamento, 
e momentos de grandes gestos e de inspiração, 
com isso a sua força arrefece
e abandonam a ação. – Mas, aproxima-se, agora, 
a bela Ofélia. – Ninfa, em suas preces,
lembra-te de todos os meus pecados.


Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta 


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Khalil Gibran (1883-1931)

ON MARRIAGE
Khalil Gibran

When Almitra spoke again and said, "And what of Marriage, master?"
And he answered saying:
You were born together, and together you shall be forevermore.
You shall be together when white wings of death scatter your days.
Aye, you shall be together even in the silent memory of God.
But let there be spaces in your togetherness,
And let the winds of the heavens dance between you.
Love one another but make not a bond of love:
Let it rather be a moving sea between the shores of your souls.
Fill each other's cup but drink not from one cup.
Give one another of your bread but eat not from the same loaf.
Sing and dance together and be joyous, but let each one of you be alone,
Even as the strings of a lute are alone though they quiver with the same music.
Give your hearts, but not into each other's keeping.
For only the hand of Life can contain your hearts.
And stand together, yet not too near together:
For the pillars of the temple stand apart,
And the oak tree and the cypress grow not in each other's shadow.

In "The Prophet"

SOBRE O CASAMENTO
Khalil Gibran

Então Almitra falou novamente e perguntou:
- O que dizeis sobre o casamento, Mestre?
E ele respondeu:
- Nascestes juntos e juntos permanecereis por todo o sempre.
Juntos estareis quando as brancas asas da morte extinguirem vossos dias.
Sim, juntos estareis até mesmo na memória silenciosa de Deus.
Mas que haja espaços em vossa união
E as asas do céu dancem entre vós.
Amai um ao outro, mas não façais do amor uma grilhão;
Que antes haja um mar ondulante entre as praias de vossas almas.
Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
Dividi o vosso pão, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres,
Mas deixai cada um de vós estar só,
Assim como as cordas do alaúde são separadas, no entanto, vibram na mesma música.
Dai o vosso coração, mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida pode conter o vosso coração.
E vivei juntos, mas não fiqueis demasiadamente juntos:
Pois as colunas do templo se erguem separadamente,
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.
In "O Profeta"
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta 


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Bayard Tonelli

BORBOLETAS TAMBÉM SANGRAM
Bayard Tonelli

Borboletas também sangram
Aos suaves talhos de
Ágeis e ásperas plumas
Deslizando ao comando
De artistas celestiais
Na busca cruel e incessante
Da beleza plena

Borboletas também sangram e sofrem
Nos campos de batalhas
Nos lares escritórios
E ao se verem preteridas
Postas de lado por exuberantes
Lagartas oportunistas
Ao tomarem o centro do jardim

Borboletas também sangram, sofrem e choram...
Mágoas perdidas em desencantos
De dias fúteis
Voam em rotas feridas
No atrito de violentas paixões marginais
E se esvaem em atmosfera densa e poluída
Onde entraram inocentes e desprevenidas

Borboletas também sangram, sofrem, choram e se desesperam...
A chicotadas de línguas ferinas a tentar
Diminuir seu esplendor e leveza
E desaparecem em lembranças varridas
Ao canto mais escuro do quarto
Embaixo do velho tapete persa
Puído por desinformadas e vorazes traças

Borboletas sangram
Sofrem choram
E se desesperam

Mas nunca desistem de voar...

Março 2008
In Dzi’in’verso, Ibis Libris, 2009

BUTTERFLIES ALSO BLEED
Bayard Tonelli

Butterflies also bleed
At sweet strokes
Of agile and harsh feathers
Slipping at the command
Of heavenly artists
In cruel and relentless search
Of full beauty

Butterflies also bleed and suffer
In the battlefields
At home and at the offices
And when neglected
Put aside by exuberant
Opportunistic caterpillars
Taking the core of the garden

Butterflies also bleed, suffer and cry...
Heartaches lost in disenchantments
Of frivolous days
Fly in wounded routes
In the friction of violent marginal passions
And vanish in the dense and polluted atmosphere
Where they had entered innocent and unsuspecting

Butterflies also bleed, suffer, cry and despair...
The whipping of sharp tongues trying
To reduce their splendor and lightness
And they disappear in swept-away memories
At the darkest corner of the room
Under the Old Persian carpet
Threadbare by uninformed and voracious moths

Butterflies bleed
Suffer, cry
And despair

But will never give up flying...

March, 2008

Translation: Thereza Christina Rocque da Motta 


Gabriela Mistral (1889-1957)

Canção dos que querem olvidar
Gabriela Mistral

Ao costado do barco,
Meu coração está pregado,
Ao costado do barco
De espumas acobertado.

Lava-o, mar, com sal eterno,
Lava-o, mar, lava-o, mar,
Que a Terra foi feita para a luta,
E tu feito para consolar.

Sobre a proa poderosa,
Meu coração está cravado.
Vê, barco, que levas
Teu vértice ensanguentado.

Lava-o, mar, com sal tremendo,
Lava-o, mar, lava-o, mar.
Ou parta-o na proa
Que não o quero mais levar.

Sobre este barco,
Minha vida está derramada.
Muda-a, mar, nos cem dias
Em que ela te desposará.

Muda-a, mar, com teus cem ventos.
Lava-a, mar, lava-a, mar,
Pois outros te pedem ouro e pérolas,
E eu te peço olvidar.

Tradução de Thereza Rocque da Motta



Gabriela Mistral foi a primeira autora latino-americana a receber o Prêmio Nobel em 1945, reconhecendo o alcance e a importância da poesia desta escritora chilena. Comemoramos 70 anos desse prêmio a uma mulher que não só lecionou como representou a cultura por onde passou. Em novembro de 1945, ela morava em Petrópolis como adida cultural do Chile, quando recebeu o telegrama avisando-a da concessão do Nobel. Em 10 de dezembro do mesmo ano, houve a cerimônia de entrega em Estocolmo. Seu prêmio foi o primeiro de literatura entregue após a Segunda Guerra Mundial, período em que o Nobel não foi concedido devido à ocupação nazista na Suécia e a proibição de se entregar esse prêmio a alemães. Gabriela Mistral era o pseudônimo de Lucila Godoy, em homenagem a dois poetas de sua predileção, Gabrielle D'Annunzio e Frédéric Mistral. Faleceu em Nova York, em 1957.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Mano Melo

NADA VAI APAGAR MEU SORRISO
Mano Melo

Podem ameaçar com as bombas e morteiros
da Marinha americana,
podem roubar meu dinheiro
e chamar os hômes pra me levar em cana.
Nem que as vacas tussam e as porcas torçam seus rabos,
nem que eu seja atacado por mil cachorros brabos,
mesmo que me acusem de tudo que é heresia
e arranquem meu dente de siso
sem anestesia,
nada vai apagar meu sorriso.

Podem ameaçar com o Armageddon
e as trombetas do Juízo Final.
Podem pintar o mar de marrom
e botar dez mil crianças assaltando no sinal,
podem parar o mundo e apagar a luz,
abrir a caixa dos pregos e me pregar na cruz,
podem rodar a baiana, podem soltar a franga,
bordar tudo mais feio que o cão chupando manga,
destruir a ferro e fogo os frutos do paraíso,
nada vai apagar meu sorriso.

Podem sujar a atmosfera
até fazer doloroso o ato de respirar.
Podem abrir a jaula e soltar a besta-fera
com sua boca horrenda para me devorar,
perfurar meus olhos com setas envenenadas
até que fiquem cegos,
me fechar no escuro junto com morcegos,
ratazanas e baratas aladas,
sem nenhum sinal ou prévio aviso,
nada vai apagar meu sorriso.

Entre os campos de batalha dessa guerra infame,
busco trocar amor com quem também me ame.
E sei que a maioria das pessoas são pessoas decentes,
gente do bem trabalhando para criar filhos
e passar sua herança de conhecimentos.
Por isso, quando o trem parece correr fora dos trilhos
e o dragão ameaça cuspir fogo pelas ventas,
eu sei que tudo na vida tem uma explicação
e que existem razões que são estranhas até à própria razão.
Não importa as teias que a aranha teça,
a gente tem que se cuidar pra não virar presa.
Se a aranha tá a fim de te jantar,
você não pode permanecer passivo.
Não apenas navegar, viver também é preciso.
Eu fico mais forte quando penso nisso:
nada vai apagar meu sorriso.

NOTHING WILL ERASE MY SMILE
Mano Melo

They can threaten me with bombs and mortars of the US Navy.
They can steal my money and call the cops to put me in jail.
No matter if the cows cough or the pigs twist their tails.
Even if I’m attacked by a thousand angry hounds
Even if they accuse me of every other heresy
And pluck my wisdom tooth with no anesthesia,
Nothing will erase my smile.

They may threaten me with the Armageddon
And the trumpets of the Judgment Day.
They can paint the sea of brown
And put ten thousand kids mugging at the crossings.
They can stop the world and shut the light down
Open a box of nails and nail me to a cross.
They can go crazy or wild
Paint all uglier than a dog sucking mango
Destroy with iron and fire the fruits of Paradise,
Nothing will erase my smile.

They can foul the atmosphere
Making it painful to breathe.
They can open the cage and release the beast
With its ugly mouth to devour me
Pierce my eyes with poisoned arrows
Until I turn blind
Shut me in the dark along with bats,
Rats and winged cockroaches
With no sign or prior notice,
Nothing will erase my smile.

Between the battlefields of this infamous war,
I seek to love someone who also loves me.
And I know most people are decent,
Nice people working to raise their children
And pass down their heritage of knowledge.
So when the train seems to run off the rails
And the dragon threatens to breathe out fire,
I know everything in life has a reason,
And some reasons are alien to reason itself.
No matter the webs a spider can weave,
Be careful not to become its prey.
If the spider wants to eat you,
You can’t just sit still.
It’s not just sailing; living is also a must.
I’m stronger when I think about this:
Nothing will erase my smile.


Translation by Thereza Christina Rocque da Motta