quarta-feira, 20 de maio de 2020

William Shakespeare (1564-1616) Ricardo III

RICARDO III (WILLIAM SHAKESPEARE)

ATO PRIMEIRO
CENA PRIMEIRA: Uma rua de Londres
Entra Ricardo, Duque de Gloucester, sozinho

GLOUCESTER:
Eis o inverno do nosso descontentamento
Que ressurge como um verão glorioso sob este sol de York;
E todas as nuvens que pesavam sobre nossa casa
Jazem sepultas nas profundezas do oceano.
Eis que nossas frontes estão cingidas pelos louros da vitória;
Nossos braços feridos pendurados para os monumentos;
Nossos aturdidos alarmes hoje são festivas reuniões,
Nossas terríveis marchas são deliciosas danças.
A guerra sombria suavizou sua fronte enrugada;
E, agora, em vez de montar corcéis armados
Para aterrorizar as almas de temíveis adversários,
Escala agilmente até o quarto de uma dama
Para o prazer lascivo ao som de um alaúde.
Mas, eu, que não sou afeito a truques esportivos,
Nem para cortejar uma parceira amorosa;
Eu, que sou grosseiro, e sem a majestade do amor
Para pavonear-me diante de uma idílica ninfa;
Eu, privado de belas proporções,
Desprovido de qualquer encanto pela pérfida natureza,
Deformado, inacabado, nascido prematuro
Neste mundo dos vivos, malfeito e incompleto,
E tão claudicante e sem jeito,
Que os cães ladram quando me aproximo;
Pois, eu, nesse fraco interregno de paz,
Não tenho prazer em meus passatempos,
A não ser ver minha sombra ao sol
E descrever minha própria deformidade:
E, portanto, como não posso me provar amoroso,
Para entreter estes belos e famosos dias,
Determinei-me que serei um vilão
E odiar os prazeres ociosos desses tempos.
Conspirei, fiz induções perigosas,
Absurdas profecias, difamações e sonhos,
Para lançar meu irmão Clarence e o rei
Um contra o outro, em ódio mortal:
E se o rei Edward for tão verdadeiro e justo
Quanto sou sutil, falso e traiçoeiro,
Hoje Clarence deverá ser feito prisioneiro,
Graças a uma profecia, que diz que ‘G’
Será o assassino dos herdeiros de Edward.

Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta