terça-feira, 1 de maio de 2012

A Fênix e a Pomba (William Shakespeare)


THE PHOENIX AND THE TURTLE

Let the bird of loudest lay,
On the sole Arabian tree,
Herald sad and trumpet be,
To whose sound chaste wings obey.

But thou, shrieking harbinger,
Foul pre-currer of the fiend,
Augur of the fever's end,
To this troop come thou not near.

From this session interdict
Every fowl of tyrant wing,
Save the eagle, feather’d king:
Keep the obsequy so strict.

Let the priest in surplice white,
That defunctive music can,
Be the death-divining swan,
Lest the requiem lack his right.

And thou, treble-dated crow,
That thy sable gender mak’st
With the breath thou giv’st and tak’st,
‘Mongst our mourners shalt thou go.

Here the anthem doth commence:
Love and constancy is dead;
Phoenix and the turtle fled
In a mutual flame from hence.

So they lov’d, as love in twain
Had the essence but in one;
Two distincts, division none:
Number there in love was slain.

Hearts remote, yet not asunder;
Distance, and no space was seen
‘Twixt the turtle and his queen;
But in them it were a wonder.

So between them love did shine,
That the turtle saw his right
Flaming in the phoenix' sight:
Either was the other's mine.

Property was thus appall’d,
That the self was not the same;
Single nature's double name
Neither two nor one was call’d.

Reason, in itself confounded,
Saw division grow together;
To themselves yet either-neither,
Simple were so well compounded

That it cried how true a twain
Seemeth this concordant one!
Love hath reason, reason none
If what parts can so remain.

Whereupon it made this threne
To the phoenix and the dove,
Co-supreme and stars of love;
As chorus to their tragic scene.

THRENOS.

Beauty, truth, and rarity.
Grace in all simplicity,
Here enclos’d in cinders lie.

Death is now the phoenix’ nest;
And the turtle's loyal breast
To eternity doth rest,

Leaving no posterity:--
‘Twas not their infirmity,
It was married chastity.

Truth may seem, but cannot be:
Beauty brag, but 'tis not she;
Truth and beauty buried be.

To this urn let those repair
That are either true or fair;
For these dead birds sigh a prayer.

A FÊNIX E A POMBA

Pouse o pássaro cantante
sobre a solitária árvore da Arábia,
A anunciar e proclamar, triste,
Aos que obedecem às castas asas.

Mas tu, esganiçado mensageiro,
Precursor terrível do demônio,
Augúrio dos estertores,
Destes dois não te aproximes.

Afasta neste momento
Todo pássaro tirânico,
Exceto a águia, rei das aves:
Mantém o acesso restrito.

Deixemos o padre em branca sobrepeliz,
Como faz o cantochão,
Ser o cisne portador da morte,
A menos que o réquiem se subjugue.

E tu, corvo de canto agudo,
Que segues soturno
Como o ar que respiras,
Entre nossos enlutados seguirás.

Aqui começa nossa antífona:
Morreram o amor e a constância:
A Fênix e a Pomba partiram
Numa única flama daqui.

Eles se amavam ternamente,
Aspiravam à mesma essência;
Sendo dois, eram um:
No amor, eram um só.

Corações remotos, mas unidos;
Na distância, não havia espaço
Entre a pomba e sua rainha;
Mas neles, isso era um assombro.

Então, entre os dois o amor brilhava,
Assim a pomba quis
Brilhar diante da fênix:
Qualquer uma que fosse minha.

O dono estarreceu-se,
Que um deles deixou de ser quem era:
O nome duplo de uma mesma natureza,
Não chamou nenhum dos dois.

A razão, confundida,
Viu aumentar a distância;
Para eles, entretanto, seguiam
Simples e bem compostos.

Exclamaram: como dois
Podem parecer um só!
O amor sabe e, ao mesmo tempo,
Não sabe o que os mantém unidos.

Assim, compôs-se este lamento
Para a fênix e a pomba,
Tão supremas e estrelas do amor;
Como coro para seu trágico fim.

LAMENTOS.

Beleza, verdade e raridade.
A graça em toda simplicidade,
Aqui jaz reduzida a cinzas.

A morte acolhe a fênix em seu ninho;
E o peito fiel da pomba
Descansa por todo o sempre,

Sem deixar posteridade: –
Essa não era sua firmeza,
Casaram-se em castidade.

Parece verdade, mas não pode ser:
A beleza proclama, mas ela não é;
A verdade e a beleza são enterradas.

A esta urna, devemos sussurrar
Verdadeira ou justa;
Uma oração a estes pássaros feridos.

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta 



3 comentários:

Sérgio Machado disse...

DÉCIMA LUA: o seu poema enche o sábado de sentimentos especiais e acorda os sentidos.

Thereza Christina Motta disse...

Obrigada por me dizer isso. Grande abraço.
Thereza Christina

Thiago Queiroz disse...

Thereza Christina bela morena
Mais gata que ela não há
Doce moça terrena
Musa de fazer pirar.


Tem um corpo escultural
Mais do que enfeitiça
Provoca paixão natural
E aos homens causa cobiça.


Beleza igual nunca vi
Até Afrodite agoura
Olhos mais brilhantes que rubi
Mais linda tradutora.


Olhos matadores de rainha
Medusa e Basilisco são fichinha
Sorriso que hipnotiza
Para sempre a nossa poetisa.



Esta é minha singela homenagem a você, ó conspícua tradutora, uma vez que sua tradução me ajudou a estudar os sonetos de Shakespeare, exigência da minha carrasca professora de Hermenêutica Jurídica. É uma poema simples, pueril; sei que Pablo Neruda, Fernando Pessoa e Vinícius de Moares estão se contorcendo em seus sepulcros com tal afronta à poesia, mas garanto a você que foi feita com muito carinho. Abraços.