sexta-feira, 3 de julho de 2009

John Keats (1795-1821)

ODE ON A GRECIAN URN
John Keats

Thou still unravish’d bride of quietness,
Thou foster-child of Silence and slow Time,
Sylvan historian, who canst thus express
A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fringed legend haunts about thy shape

Of deities or mortals, or of both,
In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loth?
What mad pursuit? What struggle to escape?
What pipes and timbrels? What wild ecstasy?

Heard melodies are sweet, but those unheard
Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endear’d,
Pipe to the spirit ditties of no tone:
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave

Thy song, nor ever can those trees be bare;
Bold Lover, never, never canst thou kiss,
Though winning near the goal—yet, do not grieve;
She cannot fade, though thou hast not thy bliss,
For ever wilt thou love, and she be fair!

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unwearièd,
For ever piping songs for ever new;
More happy love! more happy, happy love!

For ever warm and still to be enjoy’d,
For ever panting, and for ever young;
All breathing human passion far above,
That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,
A burning forehead, and a parching tongue.

Who are these coming to the sacrifice?
To what green altar, O mysterious priest,
Lead’st thou that heifer lowing at the skies,
And all her silken flanks with garlands drest?
What little town by river or sea-shore,

Or mountain-built with peaceful citadel,
Is emptied of its folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
Will silent be; and not a soul, to tell
Why thou art desolate, can e’er return.

O Attic shape! fair attitude! with brede
Of marble men and maidens overwrought,
With forest branches and the trodden weed;
Thou, silent form! dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral

When old age shall this generation waste,
Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
‘Beauty is truth, truth beauty, — that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.’

ODE A UMA URNA GREGA
John Keats

Oh, noiva impávida envolta em quietude,
filha adotiva do Silêncio e do Tempo que não passa,
historiadora silvestre que não consegue expressar
uma lenda florida mais doce que nosso canto:
que folha misteriosa envolve tua forma

de deusas ou mortais, ou ambas,
em Tempe ou nas dales da Arcádia?
Que deuses e homens são estes? Que mulheres?
Que busca frenética? Que luta para fugir?
Que flautas e címbalos? Que êxtase alucinado?

Ouço melodias doces, mas as que não ouço
são mais doces; assim, doces flautas, tocai;
não ao ouvido terreno, mas, mais ainda,
sopre para os entes espirituais sem tom:
bela jovem sob as árvores, não podes deixar

tua música, nem mesmo estas árvores perderem suas folhas;
bravo amante, nunca, nunca pode teu beijo,
embora se aproximando – embora, não te entristeças;
ela não pode se esvanecer, embora não tenhas tua
alegria, sempre amarás, e ela será bela!

Ah, galhos tão felizes! que não podem perder
suas folhas, nem dizer adeus a Primavera;
e feliz compositor, despreocupado,
por sempre soprar novas canções em sua flauta;
amor mais feliz! amor sempre mais feliz!

Cálido e ainda amado,
sempre arfante, e sempre novo;
toda paixão humana que viva muito além,
que deixa o coração triste e magoado,
a testa em febre e a língua seca.

Quem se aproxima para o sacrifício?
Que altar verde, oh, misteriosa sacerdotisa,
conduz a chama que sobe aos céus,
e veste suas ancas sedosas com guirlandas?
Que vila junto ao rio ou ao mar,

ou sobre a montanha como uma fortaleza,
perde todo seu povo, em pio luto?
E, cidadela, tuas ruas sempre
serão silentes; e ninguém para dizer
por que estás triste, jamais poderão voltar.

Oh, Ática! Razão! Com prole de homens
de mármore e mulheres destemidas,
com galhos de floresta e campos devastados;
tua forma silente! nos provoca o pensamento
como a eternidade: Fria Pastoral

Quando a velhice desperdiçar esta geração,
permanecerás, em meio a outros lamentos
além do teu, um amigo entre os homens, a quem dizes,
‘Beleza é a verdade, a beleza da verdade – isso é
tudo que tens sobre a terra e tudo que precisais saber’.

John Keats (1795-1821)
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta (16/01/2006)


Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

One Word is Too Often Profaned
by Percy Bysshe Shelley

One word is too often profaned
For me to profane it;
One feeling too falsely disdained
For thee to disdain it;
One hope is too like despair
For prudence to smother;
And pity from thee more dear
Than that from another.
I can give not what men call love;
But wilt thou accept not
The worship the heart lifts above
And the heavens reject not, –
The desire of the moth for the star,
Of the night for the morrow,
The devotion to something afar
From the sphere of our sorrow?


Uma palavra é por demais profanada
Percy Bysshe Shelley

Uma palavra é por demais profanada
para que eu a profane;
um sentimento é por demais falsamente desdenhado
para que tu o desdenhes;
uma esperança se assemelha por demais ao desespero
para que a prudência o suavize;
e a tua piedade é mais bem-vinda
do que a de qualquer outro.
Não posso te dar o que chamam de amor;
mas não aceitarás
a adoração que eleva o coração
e os céus não desprezam, –
a ânsia da traça pela luz das estrelas,
da noite pelo amanhecer,
e a devoção pelo que se distancia
da esfera do nosso sofrer?

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta


W. B. Yeats (1865-1939)



The Circus Animals' Desertion



III


Those masterful images because complete
Grew in pure mind, but out of what began?
A mound of refuse or the sweepings of a street,
Old kettles, old bottles, and a broken can,
Old iron, old bones, old rags, that raving slut
Who keeps the till. Now that my ladder's gone,
I must lie down where all the ladders start
In the foul rag and bone shop of the heart.


A Fuga dos Animais do Circo


III

Essas primorosas imagens, assim completas,
Geradas pelo gênio, de onde vieram?
De um monte de dejetos ou do lixo da rua,
Velhas chaleiras, velhas garrafas, e uma lata quebrada,
Um ferro velho, velhos ossos, velhos panos, a velha louca
Que guarda a louça. Agora que está tudo perdido,
Devo me deitar ao rés do chão,
No antro feroz e voraz do meu coração.

in Obra reunida de W. B. Yeats, Volume I: Os Poemas

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta


Sylvia Plath (1932-1963)


Morning song


Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your foot soles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New status
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I’m no more your mother
Than the cloud that distils a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind’s hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen:
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat’s. The window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

Canção matinal

O amor a movimenta como um relógio de bolso dourado.
A parteira estapeou a sola dos seus pés, e seu choro seco
abriu espaço entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, louvando sua chegada. Estátua nova
num museu vazio, sua nudez
ampara nossa segurança. Perfilamo-nos pasmos como paredes.

Sou sua mãe
tanto quanto a névoa que em espelho reflete seu lento
esgarçar soprado pelo vento.

A noite inteira seu bafo de mariposa
tremeluz entre as pálidas rosas. Desperto e ouço:
um mar distante se move em meu ouvido.

Um choro, e caio da cama, pesada como uma vaca e floral
em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre limpa como a de um gato. O batente da janela

embranquece e devora as estrelas opacas. E agora entoas
sua sequência de notas:
as claras vogais sobem como balões.

Sylvia Plath (1932-1963), in "Ariel"
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta


Sylvia Plath (1932-1963)

Mirror
Sylvia Plath

I am silver and exact.
I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.

I am not cruel, only truthful
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake.
A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.
Every morning I’m fishing me.

Espelho
Sylvia Plath

Sou prateado e exato.
Não tenho preconceitos.
Engulo imediatamente tudo que vejo
Exatamente como é sem a névoa do amor ou do ódio.

Não sou cruel, apenas verdadeiro,
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
Grande parte do tempo, medito sobre a parede à minha frente.
É cor-de-rosa e manchada. Olhotanto tempo para ela
Que penso que entrou em meu coração. Mas ela refulge.
Rostos e a escuridão estão sempre a nos separar.

Agora sou um lago.
Uma mulher se curva sobre mim,
Procurando em minhas profundezas quem realmente ela é.
Depois ela se volta para esses mentirosos, as velas ou a lua.
Vejo seu dorso, e reflito-o fielmente.
Ela me paga com lágrimas e agitar de mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e se vai.
A cada manhã, é seu rosto que sobrevém à escuridão.
Em mim, mergulhou como uma jovem e, de mim, uma anciã
Ergue-se em direção a ela, a cada dia, como um peixe terrível.
A cada manhã, pesco a mim.

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta


Robert Frost (1874-1963)

THE ROAD NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood, 
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

In Mountain Interval (1916), by Robert Frost (1874-1963).

A OUTRA ESTRADA
Robert Frost

Uma estrada se bifurcava na floresta,
E, sem poder seguir as duas,
Por eu ser apenas um viajante, parei,
Olhei-a até onde a vista alcançava
E se perdia na curva do horizonte;

Olhei, então, também, a outra,
E, talvez por parecer-me melhor,
Por estar gramada e quase intacta;
Embora os caminhantes por ali
Usassem as duas igualmente,

E ambas naquela manhã se estendiam
Com as folhas intocadas.
Ah, deixei a primeira para outro dia!
Mesmo sabendo que um caminho leve a outro,
Duvidei que um dia eu retornasse.

Daqui a muitos e muitos anos,
Direi isso com um suspiro:
Uma estrada se bifurcava na floresta, e eu –
Segui a outra, a menos trafegada,
E isto fez toda a diferença.

In Mountain Interval (1916), by Robert Frost (1874-1963).
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta